Marcas demarcadas: estilo sob suspeita estigmatização estética e seletividade penal na juventude periferica de Salvador

Artigo por Cleidilson Santana Galiza (*).

RESUMO
O texto analisa o racismo estrutural e as assimetrias socioeconômicas expressas por meio da indumentária e da aparência da juventude em territórios periféricos de Salvador, Bahia. O escopo da investigação centraliza-se nos processos de estigmatização e criminalização da cultura e da estética urbana marginalizada, perscrutando os desdobramentos do racismo sistêmico e da violência institucional sobre a população negra juvenil. Objetiva-se problematizar o preconceito estético e discutir os impactos psicossociais e de segurança decorrentes do perfilamento racial associado ao consumo de marcas de vestuário específicas. O percurso metodológico ancora-se em uma abordagem qualitativa e analítica, fundamentada na observação sistemática do cotidiano soteropolitano, no exame de regionalismos linguísticos e na proposição de um plano de ação empírico pautado na educação popular e no midiativismo. Os resultados evidenciam uma dualidade identitária perversa, em que vestimentas propulsoras de pertencimento comunitário são convertidas, sob o viés das elites, em critérios de suspeição criminal e seletividade policial. Como implicações práticas, denota-se a premência de estruturação de redes de amparo jurídico e de ressignificação artística da moda de rua. A originalidade e a contribuição precípua deste estudo residem na articulação teórica entre a sociologia do crime, a herança colonial da diáspora africana e a análise empírica da seletividade penal no cenário urbano soteropolitano.
Palavras-chave: estética periférica; racismo estrutural; criminalização da cultura; estigmatização; Salvador.

1 INTRODUÇÃO
O espaço urbano contemporâneo de Salvador, Bahia, é marcado por profundas assimetrias socioeconômicas e por uma segregação territorial que ultrapassa as barreiras geográficas, manifestando-se de forma incisiva na dimensão simbólica e cultural. Nas periferias soteropolitanas, a indumentária e a estética adotadas pela juventude negra deixam de ser meras escolhas de consumo ou expressões de subjetividade para se tornarem vetores de estigmatização social. O projeto Marcas Demarcadas surge justamente da necessidade de investigar como o uso de determinadas marcas de vestuário — historicamente vinculadas à identidade periférica — é ressignificado pelo olhar hegemônico das elites e das forças de segurança, transformando-se em um “comprovante de periculosidade”. Diante desse cenário complexo, delimita-se o escopo desta investigação em torno dos processos de criminalização da cultura urbana marginalizada na capital baiana.
A partir dessa contextualização, delineia-se o seguinte problema de pesquisa: de que maneira o racismo estrutural e a violência institucional operam na conversão da estética e do vestuário da juventude negra periférica de Salvador em critérios de suspeição criminal e perfilamento racial? Para responder a essa questão, estabeleceu-se como objetivo geral analisar o racismo estrutural e as assimetrias socioeconômicas expressas por meio da indumentária e da aparência da juventude em territórios periféricos de Salvador. Como objetivos específicos, propõe-se: mapear a recepção social de gírias e regionalismos estéticos; investigar os impactos psicossociais do preconceito estético sobre os jovens; e propor estratégias de intervenção empírica baseadas na educação popular e no midiativismo.
A justificativa deste estudo assenta-se na urgência de se problematizar a seletividade penal e a violência simbólica que vitimizam cotidianamente a população negra e juvenil nos bairros populares. Ao descortinar os mecanismos que transformam o pertencimento comunitário em alvo de suspeição policial, a pesquisa contribui para o debate acadêmico sobre a herança colonial na diáspora africana e oferece subsídios práticos para a articulação de redes de amparo jurídico e valorização artística da moda de rua soteropolitana.

2 DESENVOLVIMENTO

O desenvolvimento deste estudo organiza-se a partir da articulação entre o arcabouço teórico crítico e os dados observacionais coletados no cotidiano de Salvador. Compreender a dinâmica das periferias soteropolitanas exige lançar luz sobre as estruturas que moldam o espaço e os corpos que o habitam.

2.1 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

A compreensão dos estigmas que recaem sobre a juventude periférica exige uma incursão detalhada pelas teorias da sociologia do crime e das relações raciais. O fenômeno da rotulação estética encontra respaldo inicial nas formulações de Erving Goffman acerca da identidade deteriorada. De acordo com Goffman (1988, p. 11), “a sociedade estabelece os meios de categorizar as pessoas e o total de atributos considerados comuns e naturais para os membros de cada uma dessas categorias”. Quando o indivíduo foge a esses atributos normativos impostos pela branquitude, aciona-se o estigma que reduz a sua humanidade.

No contexto da diáspora africana e do racismo estrutural brasileiro, essa categorização ganha contornos marcadamente coloniais e violentos. A busca por aceitação e o impacto psíquico gerado pelo espelho colonial forçam o sujeito a confrontar dinâmicas de negação e apagamento.

O sistema de justiça criminal e o aparato policial brasileiro estruturam-se a partir de uma seletividade histórico-racial. Os corpos negros e suas manifestações estéticas nos territórios periféricos são transformados em alvos prioritários do controle social punitivo, de modo que o vestuário e a aparência passam a atuar como critérios de triagem e de criminalização prévia exercidos pelas forças de segurança pública (FLAUZINA, 2019, p. 68).

Essa violência institucional, amparada pelo perfilamento racial, consolida o que a literatura contemporânea conceitua como necropolítica e Estado de Exceção permanente dentro dos bairros populares. A criminalização de marcas como Cyclone, Seaway e Kenner atua como uma engrenagem que legitima a suspeição prévia. Portanto, o ato de vestir-se na favela torna-se um campo de batalha político, onde a afirmação da identidade estética confronta diretamente a política de extermínio e controle social operada pelo Estado.

2.2 METODOLOGIA
O percurso metodológico adotado nesta investigação pauta-se por uma abordagem qualitativa, de natureza crítica e analítica. Trata-se de uma pesquisa aplicada e exploratória, orientada para a desconstrução de estereótipos sociais e para a compreensão minuciosa das dinâmicas do racismo estrutural e da seletividade penal no espaço urbano de Salvador, Bahia.

2.3 SUJEITOS E OBJETOS DE ESTUDO
A população-alvo e sujeitos diretos do estudo abrangem jovens com faixa etária entre 15 e 29 anos, autodeclarados negros e residentes em comunidades periféricas soteropolitanas, tais como Fazenda Grande do Retiro, Cajazeiras, Subúrbio Ferroviário e Tancredo Neves. Como objetos de estudo empíricos e simbólicos, delimitou-se o consumo de marcas de vestuário populares na periferia (como Cyclone, Seaway, Kenner e Mahalo), o uso de regionalismos linguísticos urbanos e as dinâmicas institucionais de perfilamento racial.

2.4 INSTRUMENTOS DE COLETA DE DADOS E MATERIAIS
A coleta e o levantamento dos materiais empíricos estruturaram-se em duas frentes integradas de atuação:
• Observação Sistemática e Análise Documental: Realizou-se a observação do cotidiano urbano soteropolitano, focada nas interações sociais ocorridas no transporte público coletivo e em espaços de lazer de massa. Paralelamente, utilizou-se como material visual uma série de ensaios fotográficos produzidos de forma independente nos territórios periféricos da cidade.
• Projeto de Intervenção Social (Marcas Demarcadas): Formulou-se um plano de ação empírico pautado nos preceitos da educação popular e do midiativismo para registrar a violência institucional.
Os procedimentos técnicos e materiais utilizados na execução do projeto foram organizados em quatro etapas operacionais, conforme detalhado no Quadro 1:

Quadro 1 – Etapas do Plano de Ação do Projeto Marcas Demarcadas.
Etapa. Atividade. Descrição Técnica dos Procedimentos.
01 Rodas de Escuta. Realização de encontros dialógicos nos bairros periféricos para coletar e registrar depoimentos de jovens sobre abordagens policiais e preconceitos sofridos em decorrência do uso de marcas específicas.
02 Workshops de Estilo. Oficinas práticas de fotografia, styling e comunicação visual focadas na valorização do visual urbano, transformando o estigma estético em orgulho e afirmação de identidade.
03 Campanha Viral. Produção e difusão de conteúdos audiovisuais digitais em redes sociais de curto alcance utilizando marcadores compartilhados para denunciar jargões discriminatórios comuns.
04 Exposição Itinerante. Instalação de galerias fotográficas em pontos estratégicos de grande circulação de massa urbana, expondo de forma artística o contraste entre o preconceito social e a realidade juvenil.
Fonte: Dados da pesquisa (2026).

2.5 TABULAÇÃO E ANÁLISE DE DADOS
O tratamento, a organização e a tabulação dos dados textuais e discursivos coletados em campo ocorreram por meio da Análise de Conteúdo Temática. Os relatos orais e testemunhos obtidos nas rodas de escuta pedagógica foram transcritos, categorizados por recorrência de termos e submetidos a um cruzamento analítico. Esse procedimento permitiu correlacionar diretamente as vivências de violência e estigmatização estética relatadas pelos jovens com o referencial sociológico clássico e as evidências de seletividade institucional do aparato de segurança pública discutidas no estudo.

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os dados coletados durante a pesquisa empírica e de campo nos bairros periféricos de Salvador (tais como Fazenda Grande do Retiro, Cajazeiras, Subúrbio Ferroviário e Tancredo Neves) revelam como o racismo estrutural molda ativamente a percepção social do espaço urbano. O estilo e as linguagens adotadas por jovens negros soteropolitanos funcionam como um campo de batalha simbólico. De um lado, a atitude ativa do “eu visto a marca” estabelece um senso legítimo de autonomia, identificação e pertencimento. Do outro, a dinâmica passiva imposta pelo racismo sistêmico transforma a vestimenta em um vetor de conformidade e controle, operando o estigma da “roupa de ladrão”.
Para compreender as discrepâncias entre a interpretação vernácula periférica e a recepção criminalizante por parte da sociedade global, estruturou-se o quadro abaixo:

Termo Regional. Sentido Formal/Dicionário. Sentido Informal Periférico. Impacto da Recepção Social Externa.
Paloso: Pessoa enrolada, desonesta ou que não cumpre promessas. Indivíduo que possui um estilo bonito, marcante ou “estiloso”. Identificado primariamente como ameaça social ou gerador de transtornos.
Foveiro: Sentido associado a termos botânicos ou variações formais. Designação pejorativa para alguém sem classe, vulgar ou que causa vergonha alheia. Reforça a repulsa de classe e a marginalização estética do negro.
Fonte: Produção do próprio autor (2026).

A análise empírica aponta que a forma como a mensagem estética é entregue gera uma dualidade perversa. O homem “paloso” manifesta simultaneamente um ápice de estilo próprio e a iminência de ser rotulado como um agente causador de transtornos. Isso ocorre porque o olhar social prioriza a cor da pele e o vestuário antes de qualquer traço de subjetividade individual.
Essa construção minuciosa da imagem e o esmero no vestir-se que caracterizam a juventude periférica soteropolitana dialogam diretamente com a teoria do Dandismo Negro, tensionada por autoras como Barreto (2021). Para a teórica, o ato de produzir-se e adornar-se na cultura negra ultrapassa a futilidade do consumo mercantil; configura-se como uma tecnologia histórica de reexistência e emancipação política. O Dandismo Negro utiliza a indumentária como um manifesto visual de dignidade e subjetividade para implodir o estereótipo colonial da subalternidade e da escravização. Contudo, nas encruzilhadas coloniais de Salvador, essa afirmação estética esbarra na engrenagem da seletividade penal, convertendo a elegância negra em suspeição imediata. Essa exata tensão entre a altivez do estilo e o peso do olhar inquisitório do Estado é materializada na postura capturada na Figura 1.


Figura 1 – Estética, identidade e a performance do estilo na periferia de Salvador. Fonte: Galiza (2026).
A imagem apresentada (Figura 1) exemplifica de maneira cirúrgica a estética urbana em voga nos territórios populares: o uso estratégico do boné de aba curva, a corrente metálica em destaque sobre o peito e a firmeza no semblante compõem a gramática visual do jovem periférico. Sob a ótica do Dandismo Negro, há um controle intencional da própria representação e uma reivindicação de beleza e presença no espaço público. No entanto, para o aparato de segurança pública e para a branquitude hegemônica, esses mesmos marcadores identitários são descontextualizados e lidos de forma automática através do viés da periculosidade, reduzindo a potência artística do sujeito a um mero perfil alvo de abordagem policial.
Essa tensão manifesta-se de forma nítida no cotidiano soteropolitano, como observado nos relatos coletados sobre a espera do transporte público em manhãs de inverno. Sob uma temperatura amena de 20°C, o estresse físico e mental dos trabalhadores coexiste com estratégias de sobrevivência urbana: jovens relatam cronometrar sua chegada ao ponto de ônibus no último minuto para mitigar a exposição a assaltos. Paradoxalmente, dentro desse curto intervalo de vulnerabilidade, o cidadão trabalhador é frequentemente “confundido” com o criminoso por seus próprios pares e pelas forças de segurança. Sob o império do medo e da violência real, a própria comunidade passa a reproduzir o olhar seletivo e excludente da branquitude como um instinto distorcido de defesa.
No âmbito teórico, o fenômeno da rotulação estética encontra eco direto nas formulações de Erving Goffman acerca do estigma. Para Goffman, o estigma constitui uma marca identitária deteriorada que reduz o sujeito perante o tecido social, transformando uma característica particular em um defeito absoluto. O uso de marcas como Cyclone e Seaway funciona, portanto, como um estigma corporal e social manipulado pelo olhar hegemônico para justificar o perfilamento racial.
Essa dinâmica engendra um doloroso conflito psicológico, plenamente explicável pela obra de Frantz Fanon em Pele Negra, Máscaras Brancas. Ao cruzar o limiar com a branquitude, o indivíduo depara-se com um “quarto de espelhos” colonial. A sociedade dita que a elegância e o caráter estão intrinsecamente vinculados à indumentária social clássica — o terno, o corte fino e os padrões estéticos emanados do Planalto Central ou das elites econômicas. Cria-se o desejo alienante de incorporar essas “máscaras brancas” para buscar aceitação e escapar do peso histórico da subalternidade colonial (o estigma da “cozinha”). No entanto, a estrutura capitalista e racial demonstra que, mesmo que o jovem negro atinja patamares elevados de consumo, ele permanece marcado como um corpo periférico indesejado dentro da genealogia das grifes comerciais, cujos detentores históricos muitas vezes descendem diretamente de oligarquias escravocratas.
O paralelo mais cínico dessa engrenagem manifesta-se no cotidiano do trabalho informal, cuja sustentação econômica revela as entranhas da exploração de classe e raça. Sob a perspectiva teórica de Karl Marx, esse contingente de trabalhadores flutuantes desprovidos de garantias constitui o “exército industrial de reserva”, uma massa de manobra essencial para regular o mercado de trabalho e rebaixar os salários gerais dentro da lógica capitalista. A elite econômica opera o que Marx conceitua como “ideologia”: uma inversão deliberada da realidade que mascara os interesses de dominação da classe soberana, transmutando a precarização extrema em virtude individual ou conformidade social pacificada.
Durante as festividades do Carnaval de Salvador, o trabalhador que traciona sua guia de picolé é lido pela elite através de um alívio cínico sob a lógica de que “que bom que ele carrega uma caixa Kibon e não o peso de uma Magnum”. Tolera-se a presença do corpo negro na informalidade precária — privado de auxílio-desemprego, carteira assinada ou proteção estatal — celebrando o sacrifício extremo sob o rótulo de “trabalho árduo” apenas para mascarar o pânico das classes abastadas perante a insurgência social. Essa espetacularização da sobrevivência e o enquadramento desses sujeitos como engrenagens invisíveis da festa são ilustrados graficamente pelas realidades capturadas na Figura 2 e na Figura 3.


Figura 2 – Vendedor ambulante cadeirante comercializando mercadorias no circuito cultural. Fonte: Guilherme Sampaio (2026).


Figura 3 – Trabalhador informal transportando depósito térmico sob desgaste físico.Fonte: Guilherme Sampaio (2026).

As realidades expostas nas ilustrações evidenciam como a subalternidade se materializa no espaço soteropolitano. Na Figura 2, o corpo marcado pela dupla vulnerabilidade — a deficiência física e a necessidade da subsistência imediata nas ruas escuras da cidade — ostenta na cabeça o boné do bloco afro Olodum, tensionando os símbolos de resistência cultural com a crueza da mercantilização informal. Já na Figura 3, o trabalhador, vestindo camisa e bermuda da marca Seaway, carrega nos braços uma pesada geleira térmica envolta em fitas adesivas. Há aqui uma ironia dilacerante: o jovem periférico veste as marcas de grife ligadas ao lazer praiano e ao status urbano enquanto seu corpo é submetido ao esgotamento físico severo para servir ao deleite das classes privilegiadas nos camarotes.
Essa inserção marginalizada e subalterna da população negra na estrutura econômica da cidade reflete com precisão as teses de Florestan Fernandes em sua obra clássica O negro no mundo dos brancos.

Fernandes (2007) demonstra que a transição para o regime republicano e para a sociedade de classes no Brasil pós-abolição não significou a integração real e democrática do ex-escravizado ao mercado de trabalho formal. Pelo contrário, o advento da ordem competitiva capitalista empurrou historicamente a população negra para as franjas do sistema produtivo, confinando-a a ocupações desvalorizadas, esporádicas e informais.
O racismo sistêmico opera, portanto, como um princípio organizador que mantém o negro preso a esse cativeiro social de subsistência precária, onde as marcas de vestuário consumidas (como a Seaway exibida na Figura 3) funcionam simultaneamente como busca por dignidade estética e como alvo predileto da estigmatização das elites, que celebram o suor do trabalhador apenas enquanto ele aceitar passivamente o lugar histórico de subalternidade colonial que lhe foi reservado.

Esse quadro de violência simbólica agrava-se com a atuação da Polícia Militar do Estado da Bahia (PMBA). Os dados de campo e os relatos de jovens alvejados por “olhares de revólveres”¹ e abordagens truculentas evidenciam que a segurança pública atua com base em critérios estéticos e raciais estritos. Enquanto bairros elitizados como o Corredor da Vitória ou pontos turísticos como o Farol da Barra contam com forte aparato protetivo voltado para salvaguardar elites e turistas estrangeiros, as incursões nas favelas frequentemente assumem um caráter beligerante. Essa evidente assimetria territorial evidencia como o Estado opera de forma seletiva. O uso de estereótipos na identificação de suspeitos consolida uma seletividade penal violenta que autoriza, em última instância, o extermínio de corpos inocentes sob o pretexto de guerra às drogas, convertendo óbitos periféricos em moedas de troca corporativas e medalhas antiéticas de mérito militar (MBEMBE, 2018). Essa estreita e perversa arquitetura de vigilância e estigmatização é visualmente representada nas Figuras 4 e 5.


Figura 4 – A vigilância tática e o enquadramento do corpo negro pela fresta da suspeição. Fonte: Galiza (2026).


Figura 5 – A estética da juventude periférica diante da iminência da presença policial. Fonte: Galiza (2026).

A composição analítica das imagens traduz visualmente a essência da violência biopolítica que atravessa os bairros populares de Salvador. Na Figura 4, a cena estruturada através da fresta na alvenaria materializa a metáfora do “olhar de revólver”: o jovem negro é enquadrado por uma mira estreita que reduz sua existência a um alvo em potencial. Trata-se da ilustração perfeita do olhar de estigma que a estrutura social lança sobre o corpo negro e periférico, em que a superficialidade do preconceito faz com que a sociedade e os agentes de segurança enxerguem apenas a roupa, o boné e a postura, esquecendo-se completamente do rosto, da subjetividade e do coração que ali batem.
Na Figura 5, a tensão ganha contornos de urgência com o contraste entre os dois jovens em primeiro plano — produzidos com marcadores estéticos autênticos de sua identidade urbana, como tranças, correntes e bonés de marca — e a viatura policial com os sinalizadores acesos logo ao fundo. O gesto do jovem à direita, que posiciona a mão sobre o peito em um movimento simultâneo de preservação interna e reverência, reflete o impacto psicossocial de viver sob o constante estado de alerta.
Sob o aporte teórico de Fanon (2008), o olhar colonial sobrepõe ao corpo negro um esquema epidérmico de inferioridade e periculosidade, no qual o sujeito é fixado pelo olhar do outro antes de qualquer interação verbal. Ao articular essa dimensão ao conceito de necropolítica de Mbembe (2018), percebe-se que a presença da viatura ao fundo não representa proteção institucional, mas sim a personificação do braço armado do Estado, cuja função na periferia se aproxima do gerenciamento da morte e do controle territorial. O vestuário e os adereços, longe de serem neutros, tornam-se o pretexto estético necessário para justificar a abordagem truculenta e a perpetuação do genocídio simbólico e físico da juventude negra soteropolitana.
¹ Relato obtido durante a pesquisa empírica de campo realizada em Salvador/BA (2026).

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
As considerações finais encerram a abordagem do projeto Marcas Demarcadas reafirmando que o problema central da pesquisa não reside na natureza intrínseca do vestuário, mas sim nas estruturas do racismo sistêmico que operam a distribuição desigual de humanidade e cidadania em Salvador. Os objetivos estipulados foram plenamente atingidos ao mapear as gírias locais, expor a violência institucional do perfilamento racial e ressignificar a moda de rua como um espaço legítimo de manifestação política e cultural.
Historicamente, a vulnerabilidade do corpo negro na diáspora remete ao trauma dos navios negreiros, onde sujeitos acorrentados preferiam o abismo do mar à sujeição da escravidão. Diante de um Estado que historicamente ignora o desaparecimento e a morte de cidadãos pretos, as favelas contemporâneas reconfiguraram-se como quilombos urbanos de força, sonho e resistência ativa contra o colonialismo de assentamento. Há uma intencionalidade sistêmica na manutenção do conflito civil e social fratricida entre os próprios negros; o fomento às ilusões de facções e o ódio inter-racial constituem a exata engrenagem de que a hegemonia branca necessita para perpetuar seu domínio.
A desconstrução dessa armadilha exige uma mudança radical de perspectiva: a ascensão pessoal não deve ser encarada sob a ótica da competição capitalista predatória, mas sim como uma reconexão orgânica do indivíduo com o mundo e com a sua ancestralidade. A juventude periférica continuará a enfrentar o paradoxo de morrer em busca de marcas e receber, como contrapartida, a marca indelével da discriminação. Romper esse ciclo de morte e bonificação antiética pressupõe o fortalecimento da autoconsciência identitária.
Como limitação do estudo, aponta-se a dificuldade de estabelecer um canal institucional permeável ao diálogo crítico junto aos quadros de comando da segurança pública do Estado. Sugere-se, para investigações futuras, o aprofundamento empírico das intersecções entre o capitalismo de plataforma (redes sociais como TikTok e Instagram) e a mercantilização da estética marginalizada, investigando até que ponto a espetacularização da moda periférica é capaz de gerar emancipação econômica real ou se apenas reitera novas formas de consumo controlado pelo padrão eurocêntrico.

REFERÊNCIAS
BARRETO, Carol. Moda e Relações Raciais. Salvador: UFBA, 2021.
FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Tradução de Renato da Silveira. Salvador: EDUFBA, 2008.
FERNANDES, Florestan. O negro no mundo dos brancos. 2. ed. rev. São Paulo: Global, 2007.
FLAUZINA, Ana Luiza Pinheiro. Corpo negro caído no chão: o sistema penal e o projeto genocida do Estado brasileiro. 2. ed. Rio de Janeiro: Brado, 2019.
GOFFMAN, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Tradução de Mathias Thigpen. 4. ed. Rio de Janeiro: LTC, 1988.
MARX, Karl. O capital: crítica da economia política: Livro I: o processo de produção do capital. Tradução de Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2013.
MBEMBE, Achille. Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte. São Paulo: n-1 edições, 2018.

* Cleidilson Santana Galiza: Graduando em História pela Universidade Católica de Salvador (UCSAL). Pesquisador voltado para as áreas de história urbana, relações raciais e criminalização da cultura popular, e membro do grupo de pesquisa “Colonialismo de assentamento e genocídios” do NEPAI-CEAO da UFBA. E-mail: galizajrr@gmail.com.

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