

NEPAI/CEAO – PÓS-AFRO, UFBA
- Responsável implementação do projeto: professora doutora Angela Lano, pesquisadora NEPAI/CEAO-PÓS-AFRO
- Supervisão e coordenação do projeto: professor doutor Livio Sansone, PÓS-AFRO/CEAO
- Pesquisadores associados: professor doutor Valdemir Donizete Zamparoni, professor doutor Fábio Baqueiro Figueiredo, PÓS-AFRO/CEAO
Apresentação Geral
O NEPAI – Núcleo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisa do Mundo Árabe e Islâmico é uma iniciativa inovadora vinculada ao CEAO – Centro de Estudos Afro-Orientais (diretora, profa. Jamile Borges) e ao programa de Pós-graduação em Estudos Étnicos e Africanos (coordenadora, profa. Magali da Silva Almeida) da UFBA.
Foi criado em abril de 2024, com recursos da FAPESB – Fundação de Amparo à Pesquisa na Bahia.
O NEPAI tem como missão expandir e consolidar os estudos sobre os mundos árabes e islâmicos na Bahia, reconhecendo tanto a herança histórica islâmica no estado quanto a crescente presença de estudantes e cidadãos oriundos de países muçulmanos.
Dialoga também com a longa e rica história de influência islâmica na Bahia e com a presença atual de estudantes e pesquisadores provenientes de países africanos de maioria muçulmana, reforçando o papel da Bahia como um centro de convergência e intercâmbio cultural.
A Bahia, com sua rica herança cultural, é um lugar estratégico para os estudos do mundo árabe e islâmico. A influência islâmica na formação cultural baiana, especialmente durante o período colonial, deixou marcas profundas na religiosidade, na música e nas tradições locais. Hoje, a presença de estudantes africanos muçulmanos na UFBA e em outras instituições da Bahia reforça a importância de compreender e valorizar esse legado.
Contexto Institucional.
O Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO)
O CEAO, fundado em 1959, é uma instituição de referência nacional e internacional dedicada à pesquisa e ensino sobre as relações entre a África, o Oriente e o Brasil, desempenhando um papel fundamental no fortalecimento do diálogo Sul-Sul.
O CEAO é um espaço privilegiado para o estudo das conexões entre o Brasil, a África e o Oriente. Localizado no coração de Salvador, não apenas acolhe o NEPAI, mas também o Instituto Confúcio, dedicado à promoção da língua e cultura chinesas, evidenciando sua vocação interdisciplinar e multicultural.
O NEPAI integra-se a essa estrutura para promover uma compreensão mais ampla das dinâmicas históricas, culturais e sociais das regiões árabes e islâmicas.
Essa convivência institucional reflete a vocação do CEAO para o diálogo intercultural e a produção de conhecimento que transcende fronteiras.
Com um rico acervo de livros, manuscritos e documentos históricos, o CEAO proporciona uma base sólida para as atividades de pesquisa e ensino. O centro organiza seminários, cursos e eventos que abordam temas como história, literatura, religião, antropologia e geopolítica, estabelecendo pontes entre diferentes tradições culturais e acadêmicas.
A criação do NEPAI está alinhada às políticas internacionais brasileiras e aos esforços globais para promover o diálogo Sul-Sul, fortalecendo as conexões entre a Bahia e os países do mundo árabe e islâmico, com foco na África muçulmana e no Oriente Próximo e Médio.
A Universidade Federal da Bahia (UFBA).
A UFBA é uma das mais importantes universidades do Brasil, destacando-se por sua tradição de ensino, pesquisa e extensão. Com forte compromisso com a inclusão e diversidade, a UFBA abriga iniciativas que abordam temas de relevância global, incluindo os estudos afro-orientais e islâmicos.
A presença do NEPAI no âmbito da UFBA reforça seu papel como polo de excelência acadêmica, oferecendo uma plataforma interdisciplinar para a análise crítica de questões relacionadas ao colonialismo, neocolonialismo, geopolítica e descolonização. Além disso, o NEPAI fomenta colaborações com outros centros acadêmicos e instituições culturais, fortalecendo a rede de estudos sobre o mundo árabe e islâmico.
O NEPAI – Missão e Objetivos.
O NEPAI foi criado para atender à crescente demanda por estudos sobre o mundo árabe e islâmico, respondendo ao interesse de alunos, pesquisadores e da sociedade em geral.
O Núcleo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisa do Mundo Árabe e Islâmico possui uma ampla gama de objetivos acadêmicos e sociais:
- Fortalecer os Estudos do Mundo Árabe e Islâmico: promover a pesquisa interdisciplinar sobre a história, cultura, religião, geopolítica e sociedades das regiões árabes e muçulmanas, com foco na África muçulmana e no Oriente Médio.
- Promover parcerias acadêmicas: estabelecer colaborações com instituições acadêmicas nacionais e internacionais e fomentar intercâmbios entre estudantes e pesquisadores.
- Ampliar o diálogo teórico e o intercâmbio acadêmico Sul-Sul, valorizando as contribuições do Brasil e da Bahia para o campo dos estudos árabes e islâmicos.
- Desenvolver cursos de graduação, pós-graduação e extensão voltados para diferentes públicos, incluindo jornalistas, gestores públicos e o público em geral.
- Ampliar a Biblioteca do CEAO: organizar, restaurar e disponibilizar um valioso acervo de livros antigos em árabe, incluindo cópias raras do Alcorão e estudos clássicos de tafsir.
- Oferecer cursos e eventos: Organizar seminários, palestras, congressos nacionais e internacionais.
- Desconstruir as narrativas colonial e orientalista na ótica da descolonização: estudar e desconstruir as representações orientalistas e as dinâmicas neocoloniais que afetam as regiões árabes e muçulmanas, promovendo uma ética da comunicação que respeite as culturas e tradições do mundo islâmico.
- Instituição de cursos de língua árabe
Estudos do Mundo Árabe e Islâmico
Os estudos sobre o mundo árabe e islâmico são essenciais para compreender as dinâmicas históricas e contemporâneas dessas regiões, incluindo temas como:
- O impacto do colonialismo e do neocolonialismo nas sociedades islâmicas.
- As contribuições culturais, científicas e filosóficas do mundo árabe e islâmico para a humanidade.
- A complexidade das questões geopolíticas, incluindo conflitos, movimentos sociais e processos de descolonização.
A Bahia, com sua rica história de interação com o mundo islâmico, oferece um contexto único para esses estudos. Desde a presença de muçulmanos africanos escravizados no período colonial até a atualidade, a influência islâmica é evidente na cultura e na identidade baiana.
A Biblioteca do CEAO
Um dos maiores patrimônios do CEAO é seu acervo bibliográfico. A biblioteca conta com livros raros, incluindo cópias antigas do Alcorão e obras clássicas de interpretação islâmica (tafsir). Muitos desses livros foram doados por embaixadas e instituições culturais ao longo das décadas, tornando-a uma das coleções mais significativas sobre o tema no Brasil.
Atualmente, o NEPAI está envolvido em tornar acessível esse acervo, promovendo sua utilização em pesquisas acadêmicas e atividades culturais. A biblioteca é um recurso valioso para estudantes, pesquisadores e todos os interessados em aprofundar seus conhecimentos sobre o mundo árabe e islâmico.
Atividades e Parcerias
O NEPAI desenvolve uma série de atividades para promover o diálogo e a pesquisa acadêmica, incluindo:
- Organização de seminários, simpósios e conferências internacionais.
- Realização de cursos e oficinas sobre temas árabes e islâmicos.
- Publicação de artigos, livros e outros materiais acadêmicos.
- Estabelecimento de parcerias com universidades, centros de pesquisa e organizações culturais no Brasil e no exterior.
Essas iniciativas têm como objetivo fomentar uma compreensão mais profunda e inclusiva das sociedades árabes e islâmicas, contribuindo para a construção de pontes entre culturas e tradições diversas.
O NEPAI representa um passo importante no fortalecimento dos estudos sobre o mundo árabe e islâmico na Bahia e no Brasil. Inserido no CEAO e na UFBA, o núcleo reflete o compromisso dessas instituições com a promoção do conhecimento, da diversidade e do diálogo intercultural.
Com uma abordagem interdisciplinar e uma visão descolonizadora, o NEPAI busca não apenas aprofundar o entendimento das questões históricas e contemporâneas, mas também contribuir para a construção de um futuro mais justo e equitativo.
Fundamentação teórica do NEPAI.
Por Angela Lano.
«O pensamento descolonial tem como essência a crítica e a desconstrução da lógica da colonização, que deriva das relações de poder colonial e da dominação colonial. O pensamento descolonial é político e esforça-se para superar as relações de colonização, colonialismo e colonialidade» (BALLESTRIN, 2013).
Um dos mitos mais poderosos do século XX foi a ideia de que a eliminação das administrações coloniais tivesse levado à descolonização, dando origem à ilusão de um mundo “pós-colonial”.
Um mito, na realidade, contando que ainda estamos plena e globalmente imersos em um planeta de colonizadores e colonizados. Como escreve Grosfoguel (2008), nos últimos 70 anos, as múltiplas e heterogêneas estruturas globais, criadas ao longo de um período de 450 anos, não desapareceram juntamente com a descolonização jurídico-política do Sul Global e, de fato, continuamos a viver dominados pela mesma “matriz de poder colonial”, talvez ainda mais forte, mais enraizada e generalizada, graças à globalização e ao papel poderoso e manipulador da mídia mainstream.
Se o colonialismo é a prática da conquista, da sujeição e da exploração, a colonialidade tem-se revelado mais duradoura e profunda como sistema de poder, sobretudo porque assenta na justificação do papel dos colonizadores como organizadores racionais do mundo e portadores de uma ordem superior (TORRE, 2020).
Em “Descolonização e Privilégio” a geógrafa Rachele Borghi (2020) salienta: «Após o fim do colonialismo histórico, vivemos com a ilusão de que tínhamos superado o colonialismo no momento em que todos os países se tornaram politicamente independentes, quando o processo geralmente referido como descolonização começou.
Contudo, este é um processo que tem mais a ver com a formação de estados-nação de um ponto de vista formal e com a invenção da nação, que com a vida material das pessoas.
Também não tem nada a ver com a descolonização do pensamento, com a eliminação das hierarquias entre indivíduos e a derrota das relações de dominação».
Nas últimas décadas, o Ocidente (entendido no sentido econômico e não geográfico), liderado pelos Estados Unidos, a Grã-Bretanha, a França (e Israel), que não deixaram de ser potências coloniais, desencadeou, encorajou e induziu dezenas de conflitos, convencionais e não convencionais, guerras civis, “revoluções coloridas” e “primaveras árabes” para as “mudanças de regime”, e “caos permanente” na Europa oriental (países balcânicos e ex Repúblicas soviéticas), no Oriente Próximo (Palestina, Síria e Líbano) e no Oriente Médio (Iraque, Irã, Iêmen, Afeganistão), no Norte da África (Tunísia, Líbia, Egito), e partes da África Subsaariana, terminando no Subcontinente Indiano (Paquistão e Caxemira) e no conflito entre a Ucrânia/OTAN e a Rússia. Trata-se de dezenas de milhões de mortos (meio milhão de crianças no Iraque, só na Primeira Guerra do Golfo). Para não mencionar o AfriCom, um verdadeiro exército colonial estadunidense posicionado na maior parte da África.
Estamos, portanto, na frente de formas neocoloniais sob o pretexto da “luta contra as ditaduras”, em prol dos “direitos humanos”, da “democratização”, etc., que são, na realidade, manifestações do supremacismo branco e da visão “orientalista” (veja-se Edward Said, 1978) sobre o mundo islâmico – por exemplo, no que diz respeito às questões religiosa e feminina, em relação às quais a mídia mainstream ocidental faz um uso extensivo de uma comunicação racista, enganosa, degradante, e discriminatória, orientada à “construção do consentimento” (veja-se Noam Chomsky, 2002) para a “exportação da democracia”.
As localizações geopolíticas alvo do Ocidente continuam sendo, entre as outras, o Norte da África e o Oriente Próximo e Médio – Tunísia, Líbia, Egito, Líbano, Síria, Palestina, Iraque, Iêmen, Afeganistão, etc.
No que diz respeito à Palestina, é um território sob ocupação israelense, onde o povo nativo é vítima de “genocídio progressivo” (veja-se Ilan Pappe, 2007 e 2023) e desde outubro 2023, de genocídio na Faixa de Gaza.
Quanto ao Iraque e à Líbia, países com alguns dos recursos petrolíferos mais importantes do mundo, foram reduzidos em um estado de pobreza geral pelas guerras da OTAN (veja-se Maximillian Forte, 2012; Cynthia McKinney, 2012; Francis Boyle, 2013; Angela Lano, 2022, entre os outros).
Destaca-se, no cenário internacional atual, o papel da China ao nível geopolítico, e não apenas comercial e econômico, empurrando na direção de um mundo multipolar: nas palavras do próprio presidente Xi Jinping, em visita a Moscou em 25 de março 2023, um mundo multipolar oferece desafios e oportunidades para o Oriente Médio e a África. De particular interesse é a posição chinesa como mediadora da paz no Oriente Próximo e Médio: entre Arábia Saudita e Irã, em relação aos cenários de guerra na Síria e no Iêmen, e entre Palestina e Israel.
O poderoso papel da mídia e da comunicação hegemônica.
Ao lado do importante discurso histórico, político e geopolítico, devemos destacar o da comunicação mass-midiática: já na década de 70 Guy Debord (1971) enfatizava a centralidade dos meios de comunicação de massa marcando uma nova fase na história da opressão social e política. Mais recentemente, em seus escritos sobre “o capitalismo da vigilância” (Surveillance Capitalism), Shoshana Zuboff (2019) salienta “o golpe epistêmico”, ou seja, o golpe decretado pelas corporações da tecnologia para reivindicar a propriedade do conhecimento na sociedade:
«Em uma civilização da informação, as sociedades são definidas por questões de conhecimento – como ele é distribuído, a autoridade que governa sua distribuição e o poder que protege essa autoridade. Quem sabe? Quem decide quem sabe? Quem decide
quem decide quem sabe? Os capitalistas da vigilância agora têm as respostas para cada pergunta, embora nunca os tenhamos eleito para governar. Essa é a essência do golpe epistêmico. Eles reivindicam a autoridade para decidir quem sabe, afirmando os direitos de propriedade sobre nossas informações pessoais e defendem essa autoridade com o poder de controlar sistemas e infraestruturas de informações críticas».
Com o trabalho de Mattias Desmet (2022) chegamos à elaboração do conceito de totalitarismo que se baseia em um poderoso processo psicológico, que é o da “massificação dos cidadãos”. Trata-se, essencialmente, de uma forma de hipnose coletiva que priva os indivíduos da capacidade de distanciamento crítico e de poder-se apelar à própria consciência. Desmet segue a visão distópica do futuro evocada por Hannah Arendt (1967), segundo a qual um novo tipo de totalitarismo, liderado por burocratas e tecnocratas, surgiria após a queda do nazismo e do stalinismo. No totalitarismo, que exibe um “desrespeito radical pelos fatos”, muitas pessoas não conseguem distinguir entre a realidade e a ficção oficializada. Assim, se produz um conformismo generalizado (veja-se Herbert Marcuse, 1968): no atual mundo globalizado, com acesso a todo o tipo de informação, o ser humano tem a possibilidade de escolher, mas não dispõe de ferramentas para uma verdadeira autonomia e, de fato, se torna passivo e manipulável.
Neste contexto, os meios de comunicação de massa atuam globalmente como instrumento de propaganda da ação política, e de totalitarismo (veja-se também Gustave Le Bon, 1895), na direção de uma “servidão voluntária” (veja-se Étienne de La Boétie, 1548), mas induzida externamente: é fundamental, portanto, entender o papel da informação em relação às dinâmicas globais em apoio aos projetos neocoloniais ocidentais. É também necessário analisar e decodificar a linguagem (a semântica e a representação antropológica) utilizada pela mídia ocidental em relação aos países alvo de interesse estratégico/geopolítico/econômico.
Como é definida a luta de libertação/resistência dos povos palestino, sírio, iraquiano, afegão, iemenita, etc. contra os invasores? Como são definidos, descritos e representados os resistentes e seus líderes? Não se trata sempre de “terroristas”, de “não civilizados”, de “violadores dos direitos humanos”, de “ameaça ao nosso estilo de vida”?
«Em qualquer lugar o colonizador chegar e se deparar com a resistência dos povos indígenas contra suas políticas imperialistas, considera a distorção da imagem desses povos um instrumento eficaz para assegurar à opinião pública do seu país que tudo o que faz é do interesse do povo, por mais brutais que sejam os crimes que comete, que já não são segredo para ninguém. Quando o povo do país ocupado e sua resistência são chamados com nomes degradantes, é fácil para as forças de ocupação mostrar ao mundo a extensão de sua nobreza e auto-sacrifício para livrá-lo do perigo de grupos terroristas. (…) Uma posição política do governo (britânico) baseada em uma ideologia racista sistemática que vê o Oriente Médio como um paraíso para o terrorismo, apresentando-o ao mundo como tal e tratando-o sob essa perspectiva, como vemos em relação à Palestina, ao Iraque e à Síria.
Por que? O que dá a essa imagem uma importância na política britânica, que é frequentemente reproduzida nas abordagens políticas e midiáticas ocidentais e na mídia árabe com uma ironia que expressa um sentimento de inferioridade? A repetição e instauração desta imagem visa despojar os povos da “outra” região da sua humanidade, para que não despertem qualquer simpatia ou responsabilidade moral, visto que a sua existência se reduz a uma fonte de ameaça e perigo e, por isso, sua eliminação é justificada» (Zangana, 2023).
Por exemplo, de 2001 (ataque às Torres Gêmeas em Nova York) até hoje, tem havido uma farta produção de textos de grande circulação sobre o “terrorismo islâmico”, o “radicalismo islâmico” e tópicos semelhantes, com pouco apoio histórico-científico, que têm alimentado confusão e contribuído a produzir a “islamofobia”, um fenômeno discriminatório e persecutório que envolve milhões de cidadãos muçulmanos no Ocidente e que ajudou a criar o “consentimento” às guerras contra o Afeganistão e o Iraque
Trata-se agora de compreender como, em termos materiais, as formas de poder assumiram modelos coloniais em escala global: a colônia tornou-se uma modalidade de dominação global superando as fronteiras tradicionais (Grosfoguel, 2005).
É necessário, portanto, continuar na direção dos Estudos coloniais, neocoloniais e descoloniais no que diz respeito aos países árabe e islâmicos envolvendo, interdisciplinarmente, ciências sociais como Antropologia, História, Geopolítica, Comunicação de massa, Direito internacional, Ciência das religiões, etc., com particular atenção ao processo da “subjugação colonial” da psique humana, da identificação do “negro” (neste caso o árabe, o muçulmano, etc.) como símbolo do mal, e à permanência da colonização do pensamento (Frantz Fanon, 1952) em suas muitas formas…
Justamente neste contexto, existe um trabalho em sinergia entre jornalistas e acadêmicos de vários países árabe-islâmicos para desconstruir a linguagem neocolonial e orientalista da mídia ocidental e ajudar a promover um novo modelo, uma nova ética da comunicação e da narração histórica que respeite as tradições e as culturas das regiões muçulmanas e que possa apresentar uma versão correta e não manipulada dos fatos e da história: faz anos que jornalistas e estudiosos do Oriente Médio estão utilizando os termos de “colonialismo” e de “neocolonialismo” em relação às operações e agressões militares dos EUA, da Grã-Bretanha, da França (e outros países da OTAN) e de Israel no Oriente Próximo e Médio (por exemplo, o bombardeio diário da Síria ou os massacres de palestinos, iraquianos, afegãos ou iemenitas), denunciando a “ideologia racista” dos governos ocidentais, o papel passivo ou o “duplo padrão” da “comunidade internacional”, das organizações humanitárias e legais internacionais e das Nações Unidas.
No âmbito dos estudos coloniais, nacionais e neocoloniais sobre o mundo árabe destaca-se o trabalho de Rashid Khalidi, um historiador e professor palestino-americano nos “Middle East and Edward Said Modern Arab Studies” da Columbia University, nos EUA. A pesquisa de Khalidi se concentra no surgimento de várias identidades nacionais e no papel desempenhado por poderes externos em seu desenvolvimento; no impacto da imprensa e a forma como as narrativas se desenvolveram ao longo dos últimos séculos na região do Mediterrâneo e Oriente Médio.
Grande parte da obra acadêmica de Khalidi concentra-se na reconstrução histórica do nacionalismo no mundo árabe: baseando-se no trabalho do teórico Benedict Anderson (1983, 1993), que descreveu as nações como “comunidades imaginadas”, ele não postula a existência de identidades nacionais primordiais, mas salienta a legitimidade e os direitos dessas nações.
No que diz respeito à Palestina, em Palestinian Identity: The Construction of Modern National Consciousness (1997), ele coloca o surgimento da identidade nacional no contexto do colonialismo otomano e britânico e do movimento sionista. Em particular, ele data o surgimento do nacionalismo palestino no início do século XX fornecendo uma réplica às afirmações nacionalistas israelenses segundo as quais os palestinos não tinham reivindicações coletivas antes da criação de Israel em 1948.
Em Resurrecting Empire: Western Footprints and Americas Perilous Path in the Middle East (2004) Khalidi destaca o envolvimento histórico ocidental no Oriente Médio e argumenta que isso continua a ter uma natureza colonialista que é moralmente inaceitável.
Judith Butler enriquece o debate com Parting Ways Jewishness and the Critique of Zionism (2012), retomando o trabalho de Edward Said, articulando uma crítica do
sionismo político e suas práticas de violência estatal ilegítima, de nacionalismo e racismo. Ela revisita e reafirma as últimas propostas de Edward Said para uma solução de um estado binacional entre palestinos e israelenses.
Novos cenários bélicos. Enquanto se agrava o conflito OTAN/Ucrânia e Rússia, estão em andamento guerras contra a Ásia Ocidental: o genocídio israelense na Faixa de Gaza, os conflitos contra o Iraque e o Iêmen, e talvez o Irã, sob embargo há décadas, e agora nos BRICS+.
A comunicação para a “construção do consentimento” reproduz sempre o mesmo padrão usado em todos os outros conflitos para manipular as “multidões” e induzi-las a apoiar a nova empresa militar do momento: propaganda negativa, mentiras, fabricação ou manipulação de fatos e, finalmente, a invenção do casus belli. O país/governo/líder alvo de atenção é primeiro demolido e deslegitimado pela mídia – megafone e instrumento do establishment político e econômico ocidental -, depois atacado militarmente.
Com esta finalidade, a semântica e os direitos humanos são utilizados para a “construção do inimigo”, em uma abordagem “orientalista” – colonial depreciativa, degradante, discriminatória e racista. Trata-se de uma destruição e degradação antropológica do “outro”, deliberadamente implementada, que o representa diariamente na TV, nos jornais e nas redes sociais, como bárbaro, atrasado, perigoso, primitivo, indigno de estar na comunidade internacional a tal ponto que as “multidões”, como nas piras de bruxas medievais, acolhem revoluções conduzidas externamente, mudanças de regime, golpes, intervenções da OTAN e assim por diante como inevitáveis e necessárias para levar a “civilização” e a “democracia” aos “trogloditas” – como aconteceu com o Afeganistão, o Iraque, a Líbia, a Síria, etc., e como poderá acontecer com o Irã. São as “guerras justas”, novas cruzadas contemporâneas, às quais a propaganda político-midiática acostumou o público ocidental.
