
A Tarde. Por Antonio Lobo. Josue de Castro publicou a Geografia da Fome em 1946 e a Geopolítica da Fome em 1951. Castro constatou que a fome é fruto de relações sociais desiguais e que a mesma não causa somente sofrimento físico, mas sim, inferiorização e erosão do potencial e da esperança dos seres humanos. Fiódor Dostoiévski, escritor russo, retratou a pobreza como uma forma de exclusão, fome crônica, invisibilidade e dominação que atinge o ser humano com profundo sofrimento, destruição da autoestima, da esperança e do futuro.
A constatação desses autores ajuda a compreender a situação da Faixa de Gaza, com 363 km2 e 2,1 milhões de habitantes (ONU 2023), onde a pobreza extrema se impõe e se agrava a cada dia, pois há cerca de 100 anos esse povo vem sofrendo violências agudas da expansão sionista que, desde 1948, com a criação do Estado de Israel no território palestino, tem se agravado com mortes, miséria e muita fome.
Fome extrema e estado de inanição absoluta com muitas mortes, principalmente de crianças, é o que se tem hoje em Gaza. Segundo dados do Ministério da Saúde local, desde outubro de 2023, mais de 61 mil pessoas foram mortas pelas ações violentas do Estado de Israel, sendo que 70% são mulheres e crianças. Horrores inimagináveis com mais de 50 mil crianças mortas ou feridas com gravíssimas mutilações, no total são 146 mil pessoas feridas gravemente e cerca de 11 mil desaparecidos, provavelmente mortos e soterrados nos escombros da matança. Segundo a UNICEF, desde o final do cessar fogo, em 18 de março de 2025, 1.309 crianças foram assassinadas e 3.738 feridas gravemente pelos crimes de guerra e Genocídio cometidos pelo Estado de Israel.
Cerca de 900 mil crianças estão passando fome em Gaza e 70 mil delas estão em estado de desnutrição extrema e com risco iminente de morte (BBCNews). Mais de mil pessoas famintas já foram mortas na fila da fome dos centros assassinos e humilhantes de distribuição de alimentos, controlados por Israel e pelos Estados Unidos. O Estado de Israel está usando a fome para torturar, corromper, humilhar, erodir a esperança e matar lentamente a população de Gaza, principalmente as crianças. É a ganância territorial, a vingança e o total desprezo pela vida humana liderando um movimento tirânico, lastreado na violência extrema, na tomada de territórios e na banalidade do mal.
Crianças famintas não são terroristas e nem antissemitas, muito pelo contrário, são seres preciosos que representam o amor, a ternura, a inocência, o futuro de um mundo sem ganância e maldade. Há uma limpeza étnica, um genocídio em curso e todos estão vendo isso. A história será implacável, pois os descendentes terão vergonha dos antepassados genocidas, mas também, para aqueles que preferiram se calar, compactuar ou mesmo apoiar, esses serão perseguidos eternamente pelo remorso e pelo peso das preciosas vidas ceifadas em Gaza, principalmente das abençoadas, inocentes e inofensivas crianças.
Antonio Lobo
Professor de Geopolítica e Geografia Política na UFBA
Doutor em Geografia Humana pela USP.
(Foto: Anadolu).







